segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Votação secreta: garantia de liberdade ou fonte de corrupção?


É natural que a sociedade Chapadinhense exija mais transparência nas ações do Legislativo. A transmissão ao vivo das sessões, a realização de audiências públicas e a existência de um portal que divulgue tanto os repasses como os gastos da Câmara é um caminho. 

Mas é preciso ir mais longe. Infelizmente a Câmara de Municipal de Chapadinha ainda convive com um anacronismo político: o voto secreto. Vários municípios maranhenses – como Paulino Neves, Raposa, etc. - já aboliram esse instituto, inclusive para eleição da mesa diretora. 

Não há nenhuma novidade nisso, é claro! O que esses municípios fizeram foi apenas seguir o que já acontece no Senado Federal, Câmara dos Deputados, assembleias legislativas e muitas outras câmaras municipais do resto do Brasil. Em todos esses casos, a votação é nominal e aberta: o vereador se posiciona no plenário e diz em quem que ele vota. 

De forma clara, o povo fica sabendo a opção do parlamentar. Com isso o jogo político fica mais transparente, claro e honesto. Há quem argumente que a votação secreta é uma garantia contra pressões externas e internas. Em tese, sim. Na prática, porém, ela tem servido mais para proteger a promiscuidade política do que a liberdade de escolha.

“Quando se faz eleição secreta, com chapa escrita e sem identificar o voto, geralmente abre-se margem para a corrupção”, diz o advogado Paulo Humberto. Segundo ele, nessas condições, pode acontecer de uma chapa comprar o voto de outra e ninguém nem ficar sabendo quem foi que vendeu.

Obviamente que isso transforma a eleição em algo imprevisível, justamente porque sujeita a todo tipo de transação - seja política ou financeira (ou as duas coisas). Para acabar com isso, seria necessário reformar a Lei Orgânica Municipal, que é quem disciplina esse processo. Infelizmente perdeu-se uma boa oportunidade para mudar essa triste realidade.

Para a eleição que acontece nesta segunda (15) em Chapadinha, não existe mais tempo. Segundo a Constituição, qualquer emenda na lei orgânica tem que ser aprovada por dois terços dos vereadores, em duas votações, e com intervalo mínimo de dez dias. Como a eleição para a mesa diretora da Câmara acontece hoje, ficamos mais uma vez no escuro. 

Governo ou oposição? Difícil prever quem vai vencer. Até mesmo porque a fronteira entre os dois lados é muito tênue. Prova disso é que o atual candidato da oposição até pouco tempo era líder do governo no parlamento municipal. O que impediria, por exemplo, algum oposicionista de, na última hora, mudar de lado e votar no candidato governista?

Para fortalecer o jogo democrático, portanto, seria melhor que a votação fosse aberta. Só assim ficaríamos sabendo quem é quem. E só assim ficaria garantida a transparência nas escolhas e decisões do Legislativo.
Ivandro Coêlho, professor e jornalista.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Projeto Balaiada: cultura, história, turismo e cidadania na região do Baixo Parnaíba

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Num ambiente cultural visivelmente inóspito como o nosso, uma iniciativa capitaneada pelo professor e filósofo Jânio Rocha Ayres Teles - e que já conseguiu a adesão de várias de pessoas, além de instituições públicas e privadas - parece despertar uma pontinha de esperança no meio da panaceia geral. 


Estou falando do "projeto Balaiada" - uma ação que visa promover valores culturais e turísticos relacionados à Guerra da Balaiada na região do Baixo Parnaíba, Baixo Munim e Cocais, em especial Chapadinha. O projeto divide-se em duas ações principais: o Festival da Balaiada e a Semana da Balaiada.

Este ano, as atividades começaram desde o dia 07 de dezembro - com apresentações de trabalhos em escolas e a montagem de um stand contendo peças relacionadas ao movimento dos balaios na II ExpoChapadinha - e prosseguem até a próxima sexta (12), com o I Seminário da Balaiada, na Faculdade do Baixo Parnaíba (FAP). Para 2015, está prevista a realização de um arraial temático.

Stand na II ExpoChapadinha (Fotos: site da URE de Chapadinha)

De acordo com o professor Jânio Aires, a recuperação da história da Balaiada representa mais do que um simples movimento de valorização cultural e histórica. "Trata, na verdade, de um repensar da índole e da identidade maranhense a partir de sua história de lutas para vivenciar a cidadania e ter melhorias de qualidade de vida", declarou.

Um outro ponto positivo do projeto seria o incentivo ao turismo na nossa região, a partir da criação de uma agenda cultural permanente em vários municípios, além da articulação com o poder público e órgãos de fomento cultural, entre eles o Ministério da Cultura. 

"Uma de nossas metas é em 10 anos ter a Semana da Balaiada consolidada no calendário turístico, cultural e escolar da região leste e nordeste maranhense", informou o professor Jânio Aires. Para isso, os organizadores pretendem divulgar tanto a semana quanto o festival nas agências de turismo da capital, secretarias municipais e estaduais de cultura, além de ministérios da cultura, turismo e educação. 


A ideia é futuramente captar recursos das secretarias e ministérios para a consolidação e expansão das ações. Além do professor e gestor da URE de Chapadinha Jânio Aires, o "projeto Balaiada" conta com a colaboração de diversos profissionais de educação e pessoas da sociedade, entre eles Edinalva, Karoline Serejo, Victor Hugo da Costa Leite, Francinalda Araújo e Silva e Franciscarlos. 

O projeto conta também com o apoio FAP – Faculdade do Baixo Parnaíba, Prefeitura Municipal de Anapurus, Prefeitura Municipal de Chapadinha, Unidade Regional de Educação de Chapadinha (URE), Sociedade Esportiva Real Brasil e Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Chapadinha (SINDCHAP). 



Balaiada - A Balaiada foi uma Revolta popular ocorrida no Maranhão entre os anos de 1838 e 1841. Historiadores apontam como um dos motivos do conflito o fato de que grande parte da população pobre do estado era contra o monopólio político de um grupo de fazendeiros da região. Esses fazendeiros comandavam a região e usavam de força e violência para atingir seus objetivos políticos e econômicos. 

Fortemente combatido pelo governo maranhense da época, que organizou forças militares com apoio de outras províncias, o movimento dos balaios foi derrotado definitivamente em 1841, com seu líder Cosme Bento sendo capturado e enforcado. 

"Resgatar a história e a relação da Balaiada com a realidade do povo maranhense constitui-se um resgate da própria identidade dessa gente e de suas condições de vida precárias, desde a época da Balaiada até os dias atuais", disse Jânio.
Ivandro Coêlho, professor e jornalista.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Eduardo Sá e a eleição da Câmara

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A ação da Polícia Federal que culminou na decretação da prisão do vereador Eduardo Sá e mais 21 pessoas acusadas de pertencerem a uma rede criminosa que atuava no Ibama e na Sema – praticando fraudes em licença ambientais, projetos de manejo e outros crimes – caiu como uma bomba no meio político de Chapadinha. 

As investigações da PF apontam Eduardo Sá como “o maior responsável, articulador e beneficiado do esquema criminoso”. Sá, que é considerado foragido, é acusado de usar a estrutura da Secretaria de Meio Ambiente do Estado para cometer “todo tipo de fraudes em processos ambientais, tais como licenciamento de operação, autorização de desmatamentos, aprovação de planos de manejo, ajustes e inserção de créditos no sistema SISDOF, entre outros.” (veja abaixo) 


A notícia também abalou o grupo contrário ao governo Belezinha, que tinha Eduardo Sá como um de seus principais representantes (o vereador está inclusive compondo a chapa da oposição para a eleição da Câmara, que acontece dia 15 deste mês). Diante desse novo cenário - com um de seus líderes figurando nas páginas policiais dos principais jornais do estado, além de blogs e redes sociais - como fica a disputa daqui pra frente? E como manter um discurso de moralidade com um membro procurado pela PF?

Nos bastidores, há boatos de que Eduardo Sá estaria sendo aconselhado a deixar a chapa oposicionista para não prejudicar ainda mais o grupo. Verdade ou não, por enquanto a eleição da Câmara é uma incógnita, podendo haver mudanças de posições de ambos os lados. Mas a situação parece ser temporariamente favorável ao governo, que, no entanto, ainda precisa intensificar a articulação política se não quiser correr o risco de repetir o fiasco da última eleição pro Legislativo.
Ivandro Coêlho, professor e jornalista.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ao louco de água e estandarte

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Manoel de Barros morreu nesta quinta-feira, 13, aos 97 anos, em Campo Grande.

Conheci o “louco de água e estandarte” há alguns anos. Foi o poeta Riba, dono da livraria “Poeme-se”, que me apresentou. Quero dizer: me apresentou a “Gramática Expositiva do Chão” - o que é a mesma coisa. Ou não é?

Tudo ali era diferente do que eu jamais tinha lido ou visto. A natureza não era um fetiche. Uma paisagem. Mera descrição de rios, matos e pedras. Ao contrário: a natureza ali era pura linguagem. Linguagem que, transformada, adquiria outra natureza: a humana.

Os signos brotavam e se enraizavam na gente. Foi um choque. Uma descoberta, seguida de um deslumbramento. Passei a ler fervorosamente. Com Manoel de Barros, aprendi duas lições fundamentais: 

1 - “As coisas que não levam a nada têm grande importância”. 

2 – “Só quem está em estado de palavra pode enxergar as coisas sem feitio”.

Manoel de Barros aboliu definitivamente a distinção entre o homem, as palavras e as coisas 
 
Ivandro Coêlho, professor e jornalista.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Música maranhense de luto

(Da esquerda para a direita: Marcos Cruz, Zé Lopes e Joazinho Ribeiro)

Ontem a música maranhense perdeu um grande artista. Trata-se do cantor e compositor Marcos Cruz. Tive o prazer de conhecê-lo durante os festivais de música universitária da UFMA, na década de 90.

Marco era um grande talento. Tinha uma visão crítica aguçada sobre cultura maranhense, principalmente sobre os rumos que a nossa música precisava tomar. 

É autor de sucessos como “Bangladesh”, consagrada na excelente interpretação de Mano Borges, além de “Moderna Mocidade”, “Negro”, “Flores artificiais” e muitas outras. 

Sempre que o encontrava, trocávamos ideias sobre músicas e projetos. Alguns desses projetos nunca chegaram a se concretizar, por conta da vida pessoal de cada um. 

Mas uma coisa a gente conseguiu fazer juntos: compomos a canção “Beijo Virtual”, que depois foi gravada pelo cantor chapadinhense Casa Grande, em seu primeiro disco. 

Ivandro Coêlho, professor e jornalista. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Os cinco anos de Beatriz

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Por: Cleuma Almeida, mãe de Beatriz

“... e assim, parece, o seu semblante inspira um delicado espírito de amor que vai dizendo ao coração suspira” (Soneto "Vida Nova", de Dante, cultuando Beatriz)

Parece que foi ontem que nós, muito ansiosos, fomos recebê-la. Digo nós porque, além de mim e do pai, estavam lá também tios, avós e Cia - todos para esperar a pequena Beatriz. E ela, como veio? Veio linda (quem estava lá não nega!). Mas o bebê cresceu. Cresceu e apareceu. Hoje é uma pequena falante, que interage com tudo e com todos. Há quem diga que será uma boa política. Ela, porém, diz que será artista. E que artista!? Sempre decorando nossa casa e nossos corações. Eu às vezes penso que será uma escritora, não só pelo gosto pela leitura e pela escrita, mas por seu raciocínio rápido, lógico. E também pelas intervenções criativas (Mariana que o diga...rsrs).

Mas o que eu quero mesmo é que ela seja uma pessoa feliz e resolvida. Uma pessoa que se ame e saiba amar. Não é à toa que seu nome é BEATRIZ - aquela que traz felicidade (e como traz!). Meu coração é testemunha. Ela é uma criança feliz e amada que tem, lógico, seus chiliques de infância, pois não é um boneco de vitrine, muito menos uma cativa que diz amém a tudo que lhe proponho ou imponho. Beatriz é seria e criativa, interativa e educada, zangada e feliz, amorosa e durona, gentil e forte, sorridente e observadora, firme e moleque. Ela é nosso estágio de encantamento no terreno das emoções. A menina feliz é fruto dos laços de afetos, do bom humor e do carinho construídos, vividos e revividos nesses cinco anos. E isso nós não delegamos nem à escola, nem à psicóloga, nem aos parentes. Aqui em casa a gente leva muito a sério essa coisa de ser criança.

Quando descobri esse bebê dentro de mim, pensei nas limitações que um filho me traria, e me enganei redondamente. Quando Beatriz nasceu, eu também nasci, embora não tenha sido fácil esse renascimento. Mas à medida que brotava em um só tempo mãe e filha, o mundo ficava mais lindo, maior e mais de cheio de oportunidades, e a vida cheia de expectativas. Quando pensei que não teria mais tempo pra ler, foi o tempo que mais li; quando pensei que não teria mais tempo para aprender, foi o tempo que mais aprendi; quando pensei que não poderia mais viajar, foi o tempo que mais viajei. Profissionalmente dei um salto considerável. 

Mas o mais maravilhoso foi o crescimento humano. O exercício do afeto. Engraçado isso, acho que nunca tinha sentido tanto amor. Era tanto amor que parecia não caber em mim, não me cansava - e não me canso! - de olhar para a bela Beatriz. Às vezes fico tentando decifrá-la, não defini-la, como bem diz Chico Buarque sobre a sua musa Beatriz, (música que inspirou o nome de nossa bela): “será o que ela é?, o que ela será?”. Não sabemos ainda totalmente - muita coisa há de mudar, com certeza... -, mas sabemos que ela também, como na música, nos ensina de vez em quando a tirar os pés do chão e a ser feliz.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Vida acadêmica

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Viver novamente a atmosfera da academia é sempre uma experiência fascinante. Ao mesmo tempo, trata-se de uma tarefa árdua, que exige obstinação e certa dose de humildade por parte de quem se aventura. É preciso estar com o espírito livre de velhos preconceitos. A mente aberta para o reencontro nem sempre harmonioso com o diferente. 

Nesse percurso, a consciência das minhas próprias limitações intelectuais é a única certeza. Para mim, nunca esse fato foi tão evidente quanto agora. Mas o horizonte que se abre e a possibilidade de interagir com o novo valem o sacrifício. Sim: estou aprendendo novamente. Ou, como dizem os pedagogos, “aprendendo a aprender”. Significa ver com outros olhos e por outros ângulos coisas que até então ignorava. Eis o sentido da reeducação.

Esta semana tive um momento especial desse aprendizado durante a defesa de dissertação de uma amiga, Renata Figueiredo - um trabalho denso em que ela propõe um diálogo entre a arte e o imaginário a partir do estudo das narrativas (contos, lendas e fábulas) de professoras de uma escola pública de São Luís. A banca foi composta pelo professor e orientador João de Deus, pela professora Lélia e pelo teatrólogo Tácito Borralho. 

Renata discorreu cerca de quarenta minutos sobre o tema de sua pesquisa demonstrando segurança e absoluto domínio de conteúdo. Seu referencial teórico incluía, entre outros autores, Gilbert Duran, Gaston Bachelard e Eliana Atihé. O resultado foi que, depois da excelente apresentação, a banca a cobriu de merecidos elogios, e recomendou a publicação de seu trabalho.

A partir de agora, Renata Figueiredo, que também trabalha com teatro, é mestre em educação. Mestre no ofício ensinar e aprender. E está pronta para trilhar voos maiores, incluindo, quem sabe, o doutorado. A mim, que ainda estou dando os primeiros passos nessa longa caminhada, só resta parabenizá-la. E registrar aqui a minha satisfação em ter participado de sua pequena-grande vitória. 

E o prazer de fazer parte do mestrado em educação da Universidade Federal do Maranhão – UFMA. 
Ivandro Coêlho, professsor e jornalista.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Governar é preciso; viver não...


Por: Almir Moreira, advogado.

Governar município cuja renda depende basicamente das transferências obrigatórias repassadas pela União e das benesses oriundas dos governos estaduais não é fácil. E essa situação complica ainda mais quando faltam planejamento e gente em postos de direção capacitada politicamente para defesa do governo e de suas políticas. 


Governante que é governante governa com quem pode lhe proteger e ajudar na formulação das políticas a serem implementadas. Governo não é confraria. Só um exemplo para ilustrar, e que exemplo!, Lula, quando presidente, emplacou na direção do Banco Central nada mais nada menos do que Henrique Meireles, ilustre membro do PSDB; na época, para quem imagina governo como um time de futebol, foi uma verdadeira heresia. 

Dificulta ainda mais a governança o enraizado na nossa cultura política, quando da época eleitoral os candidatos à cata de votos agem como verdadeiros “Messias”. Passam uma mensagem personalista, cultivando a velha prática demagógica cimentada por uma legislação eleitoral excludente e antidemocrática: votem em mim, resolvo tudo. Nas campanhas, têm solução para todos os problemas. Essa postura, repita-se, fruto da lei eleitoral, termina por contribuir para formar um pensamento dominante na sociedade: a insuficiência de recursos não é obstáculo intransponível no caminho para melhorias ou mesmo para a propalada igualdade social. Ambos os lados, maus governantes e povo, perdem a mínima inteligência e não percebem que a tal reivindicação de melhorias e igualdade ao bel-prazer, sem planejamento, organização e uso da verdade e da razão não pode se concretizar diante justamente da falta de recursos – dinheiro não brota do céu. Ambos, incoscientemente ou por demagogia, também por outros motivos tangentes à ordem jurídica, da qual sequer se dão conta, vêm ainda SUCUMBIR suas pretensões diante da pesada mão da União na má distribuição dos tributos, nas regulações excessivas e na coerção sindical. Sindicatos gritam por direitos como se eles brotassem de olhos d’águas, políticos oriundos desse sistema se firmam nas promessas mais mirabolantes e o povo, ah, o povo não foge à regra, espera sereno pelo Estado babá, joga tudo nas contas dos governantes. É este o caldo cultural de nossa política. 

Para esse pensamento, se o preço das “conquistas sociais” é a bancarrota material, a dissolução de valores, o aluimento da moralidade, a deformação do indivíduo, a demolição de toda meritocracia ou a morte dos desejos pessoais, certamente esse preço está disposto a pagar.